segunda-feira, 10 de abril de 2017

A felicidade e os animais da quinta

Um dia destes estava à espera no carro, no meu habitual "lugar do morto". Já calculava que ia ficar um bom tempinho lá, por isso, liguei o rádio, a minha fiel companhia nas horas de seca. Como uma pessoa com voz de cana rachada que se prese, também gosto de cantar as musiquetas transmitidas nos vários canais FM, mesmo não sendo aquelas que mais gosto. Mas não sou assim tão tonta de me pôr a berrar a plenos pulmões quando sei que tenho o vidro do carro aberto. Só faço isso quando o ambiente está completamente selado, para não matar ninguém de susto.

Conforme trauteava de forma bastante discreta alguma frasesinhas, ia olhando para os lados para ter a certeza que os homenzinhos que fiscalizam o estacionamento pago (o equivalente aos Emélios em Lisboa) não estavam à espreita. Sim, havia algum propósito para eu estar ali, pois claro, o era evitar do "usar a moedinha", e o posso garantir que sou bastante eficiente nesta função.

Em determinado momento em que não posso precisar, entre os não sei quantos minutos de música seguida, transmitiram alguma publicidade. Em especial, um certo anúncio sobre uma empresa que comercializa produtos lácteos. Eis senão quando, ocorreu a seguinte situação

* Senhora Incauta aproxegou-se do veículo e instintivamente, olhou para dentro do carro.*
*Nightwisha Maria bamboleava-se da esquerda para a direita enquanto cantava, a plenos pulmões, com o vidro aberto, "uma vaca feliz, outra vaca feliiiizz....!".*
*Nightwisha Maria apercebeu-se do vulto e, instintivamente, olhou para a Senhora Incauta.*
*As duas trocaram olhares.*
*Nightwisha Maria ficou petrificada, com cara de Joker dos trezentos, a olhar para a Senhora Incauta.*
*Senhora Incauta foi à sua vida, provavelmente a considerar emigrar para uma dos novos sete planetas descobertos pela NASA.*

Momento awkward do dia: ultrapassado com sucesso.
Reward: 5k de juízo, mas estava esgotado no mercado, por isso, foi uma cara de ursa para mim.





NOTA: Estes últimos tempos, como podem adivinhar pelo meu "desaparecimento súbito", têm sido trabalhosos... Mas em breve terão, finalmente, a reportagem super objectiva e profissionalíssima da Comic Con Pt 2016 ^^

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Bibliophilia

Este deveria ser um post de shaming... mas é mentira. Ler pode não ser o melhor remédio, mas é um dos melhores e que eu recomendo vivamente (àqueles que gostam, claro está ^^ ). Bibliophilia é o sentimento característico de um adorador de livros (bibliophile). Portantos, eu.

No ano passado, mantive as minhas visitas a feiras de usados, tendo apenas comprado edições novas em casos especiais. Mas o verdadeiro milagre surgiu em forma de stock off de uma livraria em Braga, que precisava de ganhar espaço e, por isso, fez uma mega promoção de vários títulos que simplesmente não eram vendidos. Sabem aquelas edições da Europa-América que já não se vêem nas livrarias há anos? E entre elas, verdadeiros achados.

Acabei, por isso, por comprar uma estante nova. Foi o suficiente. Durante alguns meses. Em minha defesa, tenho a dizer que a estante em questão é daquelas que servem de apoio para a televisão, logo, não é muito grande, e as suas prateleiras não são muito altas, albergando apenas livros de bolso ou de dimensões aproximadas. Já tenho, novamente, livros empilhados num cantinho, mas ainda assim, bem arrumadinhos, pois n'O Covil, não se maltratam esses pequenotes.

E é por tudo isso, porque adoro livros e porque também gosto de me gabar de vez em quando, que vou continuar a tradição iniciada o ano anterior de fazer contas às estantes (e à carteira), com as aquisições livrescas de 2016:

Agora é tempo de deixar as letras e passar aos números, não é? Tenho a dizer que este foi o ano em que comprei mais livros, superando em larga escala as aquisições do 2015. Ao todo, foram 59 livros, quase o dobro do ano passado. Mas, em contrapartida, gastei menos dinheiro, num total de € 97,24. Isto dá em média cerca de € 1,65 por livro, um número bem risonho (menos de metade que no ano passado) e um verdadeiro recorde.

Mas estas não são os únicos novos inquilinos das estantes do Covil. Nas contas não entram os livros oferecidos, todavia, sinto-me na obrigação (e na babação =P ) de os listar também:

Em resumo, o mercado de portais mágicos não está nada fácil, mas sempre se consegue encontrar desses pórticos que nos transportam para mundos encantados, repletos de magia, aventura e criaturas fantásticas. Apesar de medonho no geral, 2016 foi um ano fantástico para a minha bibliofilia. O mesmo já não poderão dizer as minhas prateleiras, que estão novamente sem espaço. Mas que posso eu fazer? Ler é, sem sombra de dúvidas, o meu super poder. Se pudesse, viveria mais tempo entre as suas páginas que no mundo real. Ler faz-me ser uma pessoa melhor.

E como não podia deixar de ser, a primeira compra do ano já foi feita, acompanhada, muito provavelmente, da oferta da nova colecção de livros da Visão ^^ 

Pessoa com problema de leitura extremamente grave procura nova estante para relação séria. Promete à estante muitos livrinhos para albergar no seu lindo Covil e, ocasionalmente, uma vela de aroma a canela ou madeira das Índias.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Nobrezas

Certo dia, eu e o Moço fossos levantar um voucher de alojamento grátis de uma agência de viagens. Chegados ao local, foi-nos pedido um código promocional que o Moço tinha, porque o contacto tinha sido estabelecido através dele, e ainda o nosso nome, idade e profissão. Como ele é que tinha sido o connect, começaram o inquérito com ele.

Indivíduo 1: Boa tarde, vieram para a apresentação da "Agência de Viagens X"?
Moço: Sim sim.
Indivíduo 1: Muito bem. Então como se chama?
Moço: Moço.
Indivíduo: E que idade tem?
Moço: 33 anos.
Indivíduo 1: E a profissão?
Moço: Operador de loja.
Indivíduo 1: Muito bem. E a esposa?
Nightwisha Maria, *relevando o título de esposa* - Nightwisha Maria.
Indivíduo: E a idade?
Nightwisha Maria: 26 anos.
Indivíduo 1: Profissão?
Nightwisha Maria: Advogada.
*Pausa*
Indivíduo 1: Advogada? E exerce cá?
Nightwisha Maria: Sim, aqui em Braga.
Indivíduo 1: Mas tem escritório na cidade?
Nightwisha Maria: Sim.
Indivíduo 1: Muito bem, vão só aguardar um minutinho e já vos chamo.


Primeiro momento de constrangimento ultrapassado com sucesso. Nível dois desbloqueado.

Fomos então chamados para uma sala, onde se encontravam vários promotores que iram fazer uma apresentação da agência de viagens e tentar fidelizar os vouchariano que ali se encontrassem. Devo dizer que o promotor que nos calhou era bastante simpático, ao contrário do fulano que estava encarregue de apresentar as propostas de pagamentos para a fidelização. Era um bronco autêntico e, vendo que não estávamos interessados nos valores que nos apresentaram, questionou várias vezes, ainda que indirectamente, se o promotor tinha ou não feito bem o seu trabalho, ao ponto de ter tido necessidade de lhe responder na mesma moeda. Se foi bom a tentar persuadir-nos? Sem dúvida. Mais ainda conseguimos pensar pela nossa cabeça, muito obrigada.

Mas como eu ia a dizer, o promotor lá iniciou a sua apresentação, começando por explicar como fazíamos para utilizar o voucher. Alguns blá blá blás depois, o rapaz abriu o voucher para nos mostrar e acabar de preencher e, fazendo uma pausa, pergunta:

Indivíduo 2: Mas quem é advogado dos dois?
Nightwisha Maria *erguendo o braço*: Eu.
Indivíduo 2: Bem... houve aqui uma confusão...
*Nighwisha Maria e Moço olham para o voucher e vêem que o único campo preenchido é a profissão... da Nightwisha Maria. Ainda pensam que há dois papeluchos para preencher, um para cada uma das pessoas em causa, já que o voucher só podia ser levantado em casal. Mas não, era apenas um papel para os dois.
Indivíduo 2: Bem, é para usarem os dois, não é verdade?
Nightwisha Maria e Moço: Sim.
Indivíduo 1: É que o meu colega preencheu o voucher com a profissão da Nightwisha Maria, apesar do contacto ser o Moço. Mas sendo assim, como é para usarem os dois... Vai levar a Nighwisha Maria, não vai Moço?? *risos* Vamos então preencher o voucher com os dados da Nightwisha Maria e depois coloco os contactos dos dois.
Nightwisha Maria e Moço - Ok.

Segundo momento de constrangimento ultrapassado com sucesso. Nível três desbloqueado, para aturar o palerma de quem já vos falei em cima. Naquele momento não deu para falar nada entre mim e o Moço, mas o meu alerta de *situação surreal* fez timm timm timm, mayday mayday! Ele era o contacto, mas eu é que tinha a profissão que interessava, a profissão que traz dinheiro para casa (not yet), a profissão nobre. Até o promotor ficou constrangido, mas até que conseguiu dar a volta à coisa sem fazer grande aparato. E isso é mais uma prova para o bronco de que ele é um bom profissional.


Claro que, no final, e em retrospectiva, a coisa deu para rir, mas mais para não chorar. Não entendo estas mentalidades comezinhas sobre nobreza de profissões. Se eu gosto daquilo que faço? Claro! Não investi anos e anos da minha vida para nada, muito menos para ter um suposto título. Mas a nobreza, independentemente do trabalho, nem sempre fácil, que eu e os meus colegas desempenhamos todos os dias, está, precisamente, no carácter de todos nós, não na nossa cédula profissional. Uma profissão é nobre quando os seus membros o são "cá dentro" e não nos botões do casaco. E não, não castigamos ninguém em nome da Lua.

Cheguei à conclusão, um pouco triste, que o Moço é tipo o Príncipe Philip, Duque de Edimburgo. Não sabem quem é? Pois eu também não sabia até às comemorações dos noventa anos da Rainha Elizabeth II de Inglaterra. Sabem aquele senhor de certa idade, com vestimenta militar, que anda sempre com ela para todo o lado e que se mantém a uma passo a trás da monarca? Pois bem, é o marido dela, o Príncipe Philip da Grécia e da Dinamarca, Duque de Edimburgo. E eu que pensava que a mulher era viúva há décadas.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Cada um tem o estacionamento que merece

Desde que me mudei quase permanentemente para Braga, já vivi em várias casas. Em algumas partilhei "instalações", noutras não, numas tive boas experiências, noutras não. Mas em nenhuma precisei de estacionamento (pelo menos, até agora), se bem que, à porta de quase todas elas, havia um lugar especialmente reservado para mim.


Na segunda casa onde vivi, e onde estive três anos, mesmo à porta do prédio havia (e ainda há) um lugar de estacionamento reservado para pessoas com deficiência. Quando me mudei para o prédio do lado nessa mesma rua, não havia "lugares especiais". Só que, passado algum tempo de lá estar, o que é que aparece mesmo em frente à porta da entrada? Um lugar de parqueamento para deficientes.

Entretanto, vim aqui para o Covil. À porta, só lugares "normais" para deixar o carro. No entanto, a entrada do prédio é por um arruamento sem saída, não na rua principal, por onde posso "aceder" se passar pela loja que tem no rés-do-chão do edifício. E o que é que existe mesmo ao lado da entrada da loja pela rua principal?! Não, não é um lugar de parqueamento para deficientes.

São dois.

O universo está a mandar-me uma mensagem, que de subliminar não tem nada: tira a carta e arranja uma chicolateira qualquer para guiar e rasar valente contra os muros, que lugar para deixar a carroça já tens.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Never give up, never surrender

Poderão ter achado estranho que, desde a virada do ano, a vossa fantástica Nightwisha Maria, Primeira de Seu Nome (e muito humilde, portantos), deu numa de desaparecida.

Mas isso tem uma explicação. Perto do final do ano recebi uma notificação a informar que a minha oral de agregação estava marcado para 06 de Janeiro. Esse é, para quem ainda se inscreveu na Ordem dos Advogados ao abrigo do anterior estatuto, o último exame de estágio e que ditaria se seria, finalmente, advogada.

Nunca me senti tão nervosa ou tanta pressão nas minhas costas. Já tive um curso para terminar, uma tese de mestrado para defender, mas nada disso se comparou a este obstáculo que, tal como muitos outros, teria que ultrapassar. Passei mais de uma semana enterrada em papeis, hipóteses, momentos em que achava que seria invencível e outros, porém, que não teria forças suficientes. Fui confortada por algumas pessoas próximas, como o Moço que esteve incondicionalmente ao meu lado, e desconsiderada por outras pessoas igualmente próximas, que nunca deram valor aos meus sacrifícios e que acham que a minha obrigação é ter sempre sucesso. Quanto a estas últimas, não lhes dedicarei, aqui, mais nenhuma linha.

Ontem senti o peso do mundo em cima de mim. Mas posso dizer com muita satisfação e gratidão para os que estiveram ao meu lado que, ao cabo de cerca de oito anos e meio de formação entre licenciatura, mestrado e várias fases de estágio, de sacrifícios, de luta, de alegrias, de desilusões, e dos sonhos que fui deixando pelo caminho em nome de um outro sonho maior, que consegui passar na oral e que sou, FINALMENTE, Advogada.

Acredito piamente que as cuecas de Star Wars que estava a usar também fizeram o seu trabalho e têm quota parte no meu sucesso.

Agora, seque-se mais trabalho, muito mais trabalho. Se vai fácil? Claro que não. Mas sei que consegui ter a profissão que quis. Never give up, never surrender.



Galaxy Quest (1999), em português Heróis Fora de Órbita, é um filme norte-americano e uma paródia de Star Trek, cuja catchy frase é never give up, never surrender. Apesar de ser uma comédia, é um filme fantástico, tem aquela sempre presente componente dramática sobre acreditar em si mesmo. Vejam este filme, valerá a pena.

sábado, 31 de dezembro de 2016

The best of the worst year ever ou Até para o ano que já estou farta de 2016

O ano que está prestes a abandonar-nos foi, por várias razões, dos piores que me consigo lembrar. Sobretudo, depois do Leo ter ganho o raio do Oscar. Tenho para mim que tal evento não estava predestinado a acontecer e que, graças ao roçanso com a Lady Gaga, ocorreu ali alguma fricção mais próxima de um ritual a Belzebu que outra coisa. Leo, se me estás a ouvir, és muito jeitoso e até tentas alertar o pessoal para os problemas do meio ambiente, essa invenção dos Chineses, como diz o o teu futuro presidente, mas devolve a estatueta. O mundo não é o mesmo. Até pode ser que recebas a tua alma de volta, sem grandes mossas. E convenhamos, ter um moço dourado e nú na prateleira, denota uma certa falta de gosto e decoro.

Mas de entre muitas tristezas e algumas alegrias também, o ano já está no seu final. Tenho apenas pena que não se tenha cancelado o natal, mas lá diz o ditado que não se pode ter tudo. O Leo quis o Oscar e já estamos a ver no que isso deu.

Não me vou estar aqui a pôr com tretas, a fazer listas de resoluções do novo ano, que toda a gente sabe que não será para cumprir, e pensar em coisas exequíveis mas que tenham alguma importância que não o trivial "saudinha e paz no mundo", estilo Miss Qualquer Coisa, dá muito trabalho.

Por isso, vou deixar-vos uma lista dos dez posts mais emocionantes, por boas ou más razões, para rirem ou chorarem, conforme os gostos. Podem sempre chorar a rir, que eu também deixo:
E agora, um post de bónus: Dear Nico (se nunca nos dão os volumes/ número de filmes/ fascículos de uma colecção qualquer da Planeta DeAgostini que nos prometeram, mas sempre mais qualquer coisinha, aqui o tasco local extremamente requintado não ia ser diferente). O post sobre a edição de 2016 da Comic Con fica para o ano, que ainda estou a escarafunchar essa net toda à procura de fotos... Mas vai valer a pena =P

Apesar dos momentos piadéticos, a verdade é que estou farta deste ano. Já me levaste o meu Prince Severus e a Princess Leia, por isso, põe-te a mexer.


Só espero piamente que, quando chegarmos a 2017, a "coisa" não tenha com uma legenda a acompanhar onde conste "2016, parte II". Isso sim, merece qualquer coisa a roçar (ahahahah!! Sou doida, não se vê logo?!) um ritual de Belzebu. Mas ao menos, que seja para roçar um espécime do sexo masculino. E jeitoso, vá.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Dear Nico

Posso chamar-te assim, certo? Aparentemente somos velhos conhecidos, ou coisa parecida. Desde miúda ouço dizer que és tu que me trazes os presentes no natal. Sempre me perguntei como é que era possível saberes o nome e morada de todas as crianças do planeta, as suas boas e más acções, leres todas as suas cartas e entregares as suas prendinhas em tempo record. Tem dias que acho que, das duas uma: ou dás nos ácidos ou então és uma entidade imaginária.

Gostava de saber mais coisas sobre ti, até porque apesar de, alegadamente, me dares presentes todos os anos, nunca nos cruzamos. És mesmo um velhote barbudo e pançudo, com ar de quem já bebeu uns copitos a mais, ou és um rapaz todo pimpão, que gosta de passear com os amigos e pegar na prancha de surf? Será que em vez de Nicholas, és uma Natacha? Seria muito engraçado perceber que, na verdade, eras uma mulher. E, quem sabe, uma mulher empreendedora, que depois de um dia de trabalho, ainda tem que cuidar da casa e dos filhos. Ou das renas e dos pequenos gnomos. Não tem mal nenhum que não sejas casada e tenhas decidido não ter filhos. Não deixas de ser uma mulher por não te resignares ao fogão.

Supostamente, deverias adorar esta época do ano, mas não tenho a certeza se assim é. Não estou a ver como alguém conseguiria fazer tanto em tão pouco tempo sem ter uns 6592 "coisinhos maus" por minuto, a não ser que sejas daquelas pessoas que gosta de sentir a adernalina a bombar nas veias. Eu cá não gosto nada. Mesmo nada. Nada desta bida

E já agora, não te sentes enganado? É que te têm dito todos estes anos que és a figura central das celebrações natalícias, quando na verdade o que toda a gente celebra é o Yule. Será que se esses fervorosos cristão soubessem realmente que toda uma tradição de enfeitar a árvore com luzinhas, penduricalhos, fadinhas e estrelinas, trocar presentes, o azevinho, e até as cores do teu fato são coisas de pagãos, se converteriam ou teriam um piripaque? Também não te informaram, não foi? Mas não posso dizer que não mereças. Tiraste o lugar a um puto recém-nascido que nasceu numa manjedoura, o que estavas à espera? Bolachinhas e um copinho de leite morno?

Mas eu entendo, eu entendo. Este mundo de correrias e consumismo não é nada fácil. Faz-se o que se pode para se ganhar uns trocos. É tudo apressado nesta vida, até as prendas. Sabes aquele menino a quem tiraste o lugar? Ele costumava receber os presentinhos apenas do dia de Reis, precisamente quando o Gaspar, o Melchior e o... aquele, o preto... como é que se chamava mesmo?, chegaram à manjedoura para lhe dar o ouro, o incenso e a mirra. E que ricas prendas... Bem se vê que nem foram os moços que as compraram. Pediram às velhas tias solteiras, que mais ninguém acharia que aquelas coisas iriam fazer falta a um bebé. Excepto a que escolheu o ouro. Essa tia era très chic. Acho que faz todo o sentido dar os presentes em Janeiro, até porque nessa altura, está tudo em desconto, e a conta fica bem mais apetecível. Esta coisa do natal fica cara.

Olho para esta carta, que já vai longa, e vejo que não escrevi nada de jeito. Vou à minha vida e deixo-te para ires à tua. Esta devia ser a parte em que eu começava a pedir que me trouxesses coisas, mas este ano não vou fazer nada disso, até porque acho que fui demasiado naughty para tal (tinkle tinkle). Desta vez vou, ao invés, pedir que as leves. É um serviço de transporte na mesma. Leva-me a tristeza, a ansiedade, as noites sem dormir, as dores no corpo e na alma, e todas as outras coisas e pessoas que me fazem mal. Leva e não as voltes a embrulhar, para as transformares em presentes boomerang. Deixa-as resvalar por um penhasco abaixo, mas um daqueles bem fundos, para ter a certeza que não voltam.

Termino esta carta sem saber o que te desejar, para não correr o risco de ser politicamente incorrecta. Afinal, nem sei em que acreditas tu, ou se até não acreditas, de todo, em nada. Se bem que um contratado acredita sempre em alguma coisa, designadamente, que vai receber o seu dinheirito ao fim do mês (no teu caso é capaz de ser ao fim do ano) e que lhe vão renovar mais uma vez o contrato. (Convenhamos que, bem vistas as coisas, estás numa situação bem precária... Tirar o lugar a um bebé, Nico?!). Por isso, desejo-te apenas umas boas "cenas", so pick your poison. Eu cá fico-me pelo cianeto. O espírito de natal está mais que falecido por estes lados, mas, ainda assim, mais vale prevenir que remediar. Um cianetozinho no chá nunca fez mal a ninguém.

Yours truly,
Nightwisha Maria




* Nota: Este texto é uma sátira ao natal e ao comportamento humano no geral. Todas as piadas tem um intuito humorístico, mesmo as de mau gosto, incluindo as religiosas e raciais. Não é minha intenção que estas piadas sejam uma ofensa para quem quer que seja.